O livro em destaque dessa vez é UM RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM do James Joyce.
Remete a juventude de um menino católico e sua infância, suas noções de pecado e santidade, mescladas com seu desejo de expressão individual. Um livro considerado uma obra prima, de um autor desobediente.

“V.
Ele esvaziou até a ultima gota a terceira xicara de chá aguado e pôs-se a mastigar as crostas de pão frito que estavam espalhadas perto dele, olhando fixamente para a poça escura do bule. Os pingos amarelos tinham sido tirados com concha como um monturo e a poça debaixo dele trazia-lhe de volta à memória a água escura da cor da turfa do banheiro de Clongowes. A caixa de cautelas do penhor junto ao seu cotovelo tinha acabado de ser varejada e, indolentemente, ele apanhou com seus dedos gordurosos um por um os extratos azuis e brancos, cobertos de areia, rabiscados e dobrados e trazendo o nome daquele que penhorara, Daly ou MacEvoy.
1 par de borzeguins.
1 paleto de D.
3 peças de roupa branca.
1 calça de homem.
Então ele pos de lado e olhou pensativamente para a tampa da caixa, pontilhada de vestígios de piolho, e perguntou vagamente:
– Quanto está adiantado o relógio agora?
Sua mãe acertou o despertador amassado que estava colocado de lado no meio do parapeito da lareira da cozinha até que seu mostrador indicasse um quarto para o meio-dia e então colocou-o mais uma vez de lado.
-Uma hora e vinte e cinco minutos – disse ela – A hora certa agora é dez e vinte. O queridinho aqui sabe que poderia tentar chegar a tempo de assistir a suas aulas.
– Encha esse negócio para eu me lavar – disse stephen
– Katey, encha esse negócio para o Stephen se lavar.
– Boody encha esse negócio para o Stephen se lavar.
– Não posso, estou muito ocupada. Encha você Maggie.
Quando a bacia esmaltada foi encaixada na pia da cozinha e a luva de lavar lançada ao seu lado, ele permitiu que a sua mãe esfregasse seu pescoço e esquadrimnhasse as dobras de suas orelhas e os interstícios nas abas de seu nariz.
– Bem, e uma coisa triste que um estudante universitário esteja tão sujo e que sua mãe tenha que lavá-lo.
– Mas isso lhe dá prazer – disse calmamente Stephen.
Um assobio de perfurar o tímpano foi ouvido vindo do andar de cima e sua mãe enfiou um macacão úmido em suas mãos, dizendo:
– Trate de se secar e de se apressar pelo amor de Deus.”

pg. 185 – 186

Nesse pequeno trecho podemos perceber a quantidade fascinante de detalhes na descrição de uma simples cena do cotidiano e os sentimentos sutis que revelam as camadas das relações entre os personagens. Leitura recomendada pela Desobedientes.

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